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Entrevista concedida ao site ROCK UNDERGROUND em junho de 2007 Em 2001, os amigos Ninth Schneider, Vinni e Eddie Torres idealizaram um projeto musical cujo principal objetivo era explorar todos os limites de musicalidade em busca de uma sonoridade original e com conteúdo. Dessa época o projeto sofreu várias transformações até que em 2006 se tornou a banda DRAMA. Guitarras pesadas, sintetizadores virtuais, letras com temática gótica e uma série de outros elementos, fazer com que a DRAMA possa ser considerada uma das mais criativas da cena underground carioca. Com Eddie Torres (vocais/programação), Ninth Schneider (guitarra/programação), Vinni Torres (baixo) e Alex Porto (bateria/sampler) a banda falou ao ROCKUNDEGROUND sobre sua carreira, curiosidades e sobre o festival que estão promovendo no próximo dia 23 de junho.
RU – A DRAMA é uma banda com uma estrada relativamente longa (2001), e se caracteriza por fazer a junção de diversos elementos sonoros como forma de expressão da sua musicalidade. Dentro desse aspecto artístico, como vocês chegaram à esse “caleidoscópio” de sonoridades? EDDIE TORRES – A principal característica da banda desde o início foi testar os limites da nossa criatividade e improviso.Apesar do tempo ter mudado alguma coisa no aspecto melódico ou de construção das músicas, a gente sempre buscou inserir novas tecnologias e novos sons para criar texturas diferentes e dar uma identidade para a banda. Então a gente sempre quis usar o computador como um integrante da banda, experimentando tudo o que saía em matéria de software e tudo mais...claro, tudo “shareware” (rs). RU – Essa mistura de elementos e novas tecnologias é bastante interessante, mas essa decisão foi tomada desde o início? Não houve algum tipo de “semente” que tenha motivado essa escolha tão interessante? EDDIE TORRES – Ah sim, claro! Na época nós ouvíamos muito Rob Zombie, Rammstein, Oomph, e bandas do gênero. Eu mesmo tinha acabado de sair de uma banda que tocava esse tipo de som! Mas quando a gente se juntou pra fazer músicas, nossa idéia era clara: fazer algo diferente e que se aproximasse ao máximo desse tipo de som. RU – A banda possui um vasto material gravado, seja com o nome antigo (Host) ou já como DRAMA, e é perceptível as influências de bandas alemãs bem como de bandas góticas antigas, contudo a banda preferiu seguir um caminho diferente do considerado “tradicional” pelas demais bandas, colocando suas letras em português. Pra vocês, o que representa o uso do português como língua matriz, uma vez que, conforme eu já disse, a tendência para esse estilo seria a utilização de língua estrangeira? EDDIE TORRES – Hum...isso no princípio me pareceu um desafio. E como eu disse, a gente gosta de experimentar. Então nós aceitamos esse desafio de escrever em português, porque a dificuldade maior de se escrever em português é fazer isso sem parecer piegas nem cretino. Por outro lado andar na contramão também faz parte do deságio. Tipo...porque eu adoro as bandas alemãs se não falo uma palavra em alemão? Agora, porque não criar um som com a mesma atmosfera para pessoas, que como eu, curtem esse som mas gostariam de cantar na sua própria língua?! RU – Concordo com o que você disse, mas a banda possui uma música em inglês, certo?! EDDIE TORRES – Ah sim, as primeiras musicas da primeira demo nós compusemos todas em inglês, por ser o óbvio! Mas também temos uma música em alemão também! (rs). RU – Outro diferencial dentro da banda seria a questão da apresentação da imagem, já que há todo um cuidado com o visual adotado nos shows, bem como a postura de palco e a utilização de todos os efeitos presentes no material da banda. Inclusive a própria banda cita que tais características geram um impacto diferente de todas as demais bandas de rock do país. Diante do comentário, a que vocês atribuem isso? Há um certo descaso por parte das demais bandas com o aspecto visual e sonoro? EDDIE TORRES – Cara, pra nós, ser uma banda é muito mais que fazer música. O público de Rock’n’Roll/Pop não que sentar e curtir a música como se estivesse num concerto sinfônico. As pessoas são multimídia e querem sentir aquela experiência de show com todos os sentidos possíveis. Então, enquanto banda, o que a gente pode oferecer é nossa música, e traduzir a energia dela em visual. Eu estou no underground há pelo menos 10 anos tocando, e sempre achei super chato essas bandas que sobem no palco de bermudinha, tênis e boné e fazem o show sem descolar o pé do chão. Pode até ser que estejam tocando a melhor música do universo, mas o que o show desses caras proporciona que eu não poderia ter apenas comprando o disco deles, entende?
EDDIE TORRES – Pois é, o lance é esse. Rock’n’Roll tem que ser ousado, tem que ser sexy...parece que as bandas esqueceram as lições que Elvis, Bowie, Hendriz e os outros mestres deixaram pra gente! (rs). RU – O Kiss é muito bem-sucedido nessa coisa de investir na imagem e na “teatralidade” nos shows. EDDIE TORRES – Cara, até o Radiohead, que tem essa proposta meio vazia, tem o diferencial visual do show. É o que eu disse sobre a diferença de ir a um show e ficar em casa ouvindo o disco. O show DEVE ser uma experiência única. RU – As letras de música também ajudam bastante nesse sentido, quero dizer, músicas que não tenham um mínimo de conteúdo geralmente dificultam o trabalho dos músicos em desenvolver a apresentação. EDDIE TORRES – É...também...não sei se exatamente a letra, mas acho que tem que existir verdade na mensagem que o artista está passando, seja ela a coisa mais boba ou a mais literária. O cara que ta ali no palco tem que fazer as pessoas acreditarem no que ele está dizendo. RU – Com relação à essa questão das músicas, nos trabalhos da DRAMA há uma diversidade muito grande de mensagens. Como é a escolha dos temas? Há algum tipo de ligação entre as músicas, como um conceito pré-estabelecido ou algo do tipo? EDDIE TORRES – Sobre os temas...na banda nos últimos tempos eu acabei me tornando o principal compositor tanto das letras quanto dos sons, então eu acabo vendo a música como um contexto. Tipo, a maioria das letras...maioria não...todas as letras são baseadas em alguma coisa da minha vida...uma experiência minha. Claro, que elas são exageradas à um ponto dramático, até porque minha vida não é tão interessante e intensa assim (rs). Mas em geral a gente quando vai finalizar uma música nós pensamento em clima...tipo...essa é uma música de despedida, por exemplo, então ela tem que fazer as pessoas ficarem tristes...agora como a gente consegue fazer isso?! A gente tenta, até porque se nós conseguirmos traduzir isso tocando, acho que algumas pessoas conseguirão se sentir dessa mesma forma quando ouvirem. RU – Falando ainda de público. Vocês utilizam, conforme já foi dito, vários elementos que a grande maioria das bandas não usa, e levando em conta toda a temática que envolve a banda, como tem sido a resposta da galera nos shows da DRAMA? EDDIE TORRES – Em geral eu acho que a gente está agradando. Existem shows que a gente faz que as pessoas ficam totalmente apáticas, com cara de boladas (rs). Mas depois eu recebo os comentários e percebo que parte disso é aquele público que talvez não esteja acostumado com o nosso tipo de som...acontece. Em lugares onde as pessoas estão mais receptivas às novidades, o público vai a loucura. A gente tem tocando com uma freqüência boa em São Paulo, e lá eu vejo que nosso público está crescendo e que temos fãs verdadeiros da banda...apesar da distância....infelizmente aqui no Rio, como eu disse, alguns lugares as pessoas estão ainda se acostumando com nosso estilo meio “porra-louca” (rs). RU – Você disse que a maioria dos fãs está em São Paulo...essa foi a deixa pra uma pergunta que eu faço em todas as entrevistas que realizo: Como você vê cena underground carioca? EDDIE TORRES – Uma piada! E de mal-gosto ainda por cima! Eu vejo que existem alguns produtores realmente preocupados com a “cena underground”. Eu entendo “cena underground” como músicos que trabalham em suas músicas e tocam num circuito independente do mainstream. Mas infelizmente muitos viram em bandas cover uma mina de ouro, e muitos músicos viram em fazer cover a única maneira de se expressar... Isso é triste, porque você acaba vendo o Rio como um lugar vazio, sem cultura. E daqui saíram as grandes bandas dos anos 8, e hoje em dia o que a gente vê? Bandas de trabalho próprio tendo que se virar e aceitar as condições mais adversas pra conseguir mostrar o próprio trabalho. RU – De fato esse é um dos grandes problemas da cena. Acho que o cenário musical nacional está assim como um todo. Há um interesse grande no aspecto econômico. EDDIE TORRES – Antigamente a mídia se curvava às bandas, agora as bandas que se curvam, e de costas, pra mídia (rs). RU – Você acabou de sintetizar toda a questão! (rs). Aproveitando o gancho, sobre o festival que a DRAMA está organizando, o MUSIQUE NOIR. Toda essa problemática que nós falamos acima, serviu como combustível para essa idéia? Ou o festival era algo que vinha sendo idealizado há algum tempo? EDDIE TORRES – As duas coisas...esse problema se arrasta por anos! (rs). Nós já fizemos algo parecido em 2005. Organizamos a festa “METROPOLIS”, onde tocamos nós e a MALDITA (banda). Foi foda, me amarrei na experiência e o público compareceu legal! Foi dessa maneira que eu descobri que a gente só teria o espaço ideal pra tocar se nós mesmos cavássemos nosso lugar. O MUSIQUE NOIR FESTIVAL foi uma idéia que surgiu esse ano, de tipo, “porra, não é possível que esse ano a gente só tenha show marcado em São Paulo, e não consegue tocar na nossa própria cidade!!!”. Então eu, representando a DRAMA e a CACOFONIA PRODUÇÕES, do meu camarada Nilton, resolvemos levantar a bola pra tentar fazer um evento como já rola muito em Sampa e em BH, com bandas! (coisa que aqui no Rio é meio difícil de achar...bandas no nosso estilo é claro!) Então eu, representando a Drama e a Cacofonia Produções, do meu camarada Nilton, resolvemos levantar a bola pra tentar fazer um evento como já rola muito em Sampa e em BH, com bandas! coisa que aqui no Rio é meio difícil de achar.... RU – E como vocês fizeram a escolha do cast desse festival? EDDIE TORRES – Ahm...basicamente queríamos achar bandas de estética gótica. Tanto que existe uma diversidade de estilos. Nós temos esse lance eletrônico, industial. O Knutz que tem um som bem legal também, e tem bastante influência do pós-punk, Rock inglês...Tem também a Inner Soul e Phantasy, que tem sons mais próximos. Ainda não escutei a Phantasy, foi uma escolha do Nilton, mas eu acredito que eles possuam um diferencial, porque eu confio no bom gosto do meu amigo! (rs). Também é uma forma de aproximar mais as bandas, trocar contatos...isso é uma coisa que falta também na cena, uma cumplicidade entra as bandas. Ainda mais na cena gótica, que renasceu ultimamente. Então a galera mais nova ainda está meio perdida e não sabe pra onde ir (rs)...estamos apenas dando mais uma opção. RU – A iniciativa é muito bem-vinda. Ainda mais que infelizmente ainda há no Rio de Janeiro muitos problemas entre as bandas. Existem algumas iniciativas no sentido de fazer aquilo que você falou – promover uma aproximação e talvez até uma união por parte da galera da música, não só do gótico como dos outros estilos, mas infelizmente ainda existem pessoas que preferem se fechar em seus próprios grupos. Acho que esse é um ponto que tem prejudicado muito a cena, em especial a galera que ta começando agora e as bandas com propostas novas. As famosas “panelas” (rs). EDDIE TORRES – Claro...eu sinto isso, porque apesar de ter nascido no berço gótico (rs), nosso som tem alcance muito maior...a gente é pop (rs), e não tenho vergonha disso não, pelo contrário. E o fato de tentar quebrar essas barreiras e panelas é o que cansa. Aqui no Rio eu já sei onde estão as panelas, e enche o saco bater na mesma porta várias vezes, sabe? Eu quero ficar de fora disso. Também gostaria que as bandas que estiveram na mesma situação que a gente também tenham esse espaço. RU – Acho que a iniciativa da DRAMA com o MUSIQUE NOIR vão ajudar muito a “abrir” as portas para outras bandas. Saindo um pouco dessa questão, gostaria de saber quais são os planos futuros da DRAMA? EDDIE TORRES – Está nos nossos planos lanças nosso disco novo. Já está todo escrito e com algumas partes gravadas, infelizmente tivemos um pequeno problema técnico em estúdio que fez a gente adiar as gravações. O disco já tem nome, “DRAMÁTICA” e possivelmente terá 13 faixas. Nós temos também algumas propostas pra lançamento, mas só dá pra garantir qualquer coisa quando a gente terminar de gravar. Pretendemos também fazer um clip, porque muita gente do Brasil todo tem ouvido falar na gente, ouvido nossas músicas, visto nossas fotos, mas não tem como ver um show nosso...principalmente pela falta de condições da gente fazer uma turnê...então um clip é uma ferramenta legal pra divulgar a banda nesse sentido. E queremos dominar o mundo também se sobrar tempo! (rs). RU – (rs)...Bom Eddie, gostaria de agradecer pela entrevista, e pra finalizar, como já virou tradição, queria que você deixasse um recado pra galera que acompanha o RU! EDDIE TORRES – Eu que agradeço pelo iniciativa de apoiar a música underground sem se curvar aos padrões bonitinhos e assépticos da mídia mainstream! E aos leitores, quero que vocês aram os olhos para a cultura que vocês consomem! Espalhem o amor...!!! |
Contato para shows: São Paulo
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